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Soja e desmatamento no Brasil: desafios e oportunidades

Um webinar da Trase para lançar novos dados sobre produção de soja no Brasil discutiu o regulamento de "devida diligência” da UE, o papel da China como principal mercado exportador e uma abordagem com base no risco para redução do desmatamento.

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20 Dec 2022

Photo credit: Fogo no Cerrado Brasileiro (Victor Moriyama/Rainforest Foundation)

Em 7 de dezembro, a Trase realizou um webinar para discutir os resultados de sua última pesquisa sobre desmatamento no Brasil, causado pela expansão das plantações de soja. O evento coincidiu com o acordo de um novo regulamento da UE que exigirá devida diligência obrigatória em importações de commodities agropecuárias, como a soja do Brasil, para assegurar que sejam livres de desmatamento.

Dr. Tiago Reis, líder de engajamento da Trase na América do Sul, disse que os resultados demonstraram que os biomas do Cerrado e dos Pampas são as “hotspots” mais ativas de desmatamento por soja. Nos cinco anos anteriores a 2020, as plantações de soja no Cerrado foram associadas a 264.000 ha de desmatamento – uma área quase duas vezes o tamanho da cidade de São Paulo – e 196.000 ha de desmatamento nos Pampas. Em comparação, a soja cultivada no bioma mais conhecido do Brasil – a Amazônia – foi associada a 76.400 ha de desmatamento no mesmo período.

Apesar disso, o novo regulamento da UE somente se aplica a áreas categorizadas como “floresta” e não protege vastas áreas de savana arborizada e pastagem, que compõem a maior parte do Cerrado e dos Pampas. Embora o novo regulamento seja um grande passo em direção a cadeias de suprimento de commodities livres de desmatamento, o Dr. Reis disse que tal regulamento falhou ao deixar o Cerrado e os Pampas vulneráveis à crescente exploração.

Laurent Javaudin, conselheiro para o clima, energia, meio ambiente e saúde da delegação da UE para o Brasil, disse que “não foi exatamente o caso” de o Cerrado ter sido excluído, já que todas as exportações de soja brasileira para a UE precisam ter uma declaração de devida diligência e, assim, o Cerrado está coberto por suas exigências de rastreabilidade.

Os dados da Trase demonstram que a China é o maior mercado exportador da soja brasileira e está mais exposto ao desmatamento, seguido pelo próprio mercado interno do Brasil.

O Sr. Javaudin disse que a UE aumentaria seu engajamento com países produtores e compradores, incluindo a China. Ele disse que delegados da UE se reunirão com representantes da China na Conferência de Biodiversidade COP15 em Montreal. “Explicaremos a nossos parceiros chineses o que estamos fazendo, por que é importante e esperamos vê-los seguir o exemplo no mesmo tipo de abordagem”, disse ele.

Ação voluntária tem sucesso limitado

Os resultados mostram que os grandes e bem conhecidos comerciantes de commodities Bunge, Cargill, ADM continuam a ser os mais expostos ao desmatamento no Brasil. Olam and Gavilon recentemente juntaram-se aos cinco primeiros que ampliaram suas operações no país.

Muitos comerciantes de commodities assumiram “compromissos de desmatamento zero” para parar de adquirir soja cultivada em áreas desmatadas. Porém, até 2020, somente metade das áreas produtoras de soja no Brasil estavam cobertas por compromissos de desmatamento zero. Mesmo em áreas da Amazônia abrangidas pela Moratória da Soja, a Trase descobriu que havia 133.000 ha de desmatamento associado à produção de soja nos dez anos anteriores a 2020.

Lisandro Inakake de Souza, coordenador do projeto da iniciativa de clima e cadeias de suprimento agrícola do Imaflora, disse que os compromissos voluntários de setores ou empresas e os relatórios provaram-se limitados para entregar de forma eficaz uma cadeia de suprimento livre de desmatamento e conversão. Através de seu programa “Soy on Track”, a Imaflora está trabalhando para fortalecer compromissos de desmatamento zero e melhorar a qualidade dos relatórios de progresso das empresas.

Lucie Smith, gerente sênior do Fórum de Commodities Agrícolas, disse que seus membros do agronegócio publicam relatórios bianuais que divulgam o desempenho de desmatamento e livre de conversão com base em dados reais das empresas para aquisição direta e indireta. Através do Roteiro do Setor Agrícola para 1,5°C, o fórum está trabalhando para alinhar os compromissos em todo o setor. “As empresas não se movem no mesmo ritmo, elas não têm as mesmas dificuldades, perfis de aquisição ou alta administração, logo, o DNA da empresa varia no tocante ao combate ao desmatamento e conversão da vegetação nativa”, disse ela.

'Hotspots' de desmatamento reveladas

Os novos dados da Trase revelam que apenas 13% dos municípios produtores de soja (309 de 2.388) no Brasil representaram 95% do desmatamento em 2020, enquanto os restantes tiveram baixo risco.

“Uma abordagem de devida diligência com base no risco deve favorecer a aquisição de áreas de baixo risco enquanto ajuda a almejar as medidas regulamentares em áreas de alto risco”, disse o Dr. Reis. “Aumentar a transparência nas cadeias de suprimento de commodities facilitará para que produtores e comerciantes responsáveis demonstrem que seus produtos são livres de desmatamento e atendam às exigências dos mercados internacionais.”

“Aumentar a transparência nas cadeias de suprimento de commodities facilitará para que produtores e comerciantes responsáveis demonstrem que seus produtos são livres de desmatamento"

Tiago Reis, Trase

Em uma pesquisa, perguntou-se ao público do webinar o que é mais urgentemente necessário para tornar o setor de soja brasileiro sustentável. Mais da metade acha que o governo brasileiro deveria atuar para melhorar o planejamento, monitoramento e supervisão do uso da terra para produção de commodities.

O Dr. Reis disse que o Brasil deveria implementar um sistema robusto, aberto e transparente de rastreabilidade da cadeia de suprimento de commodities. Ele deu o exemplo da Indonésia, onde compromissos de transparência significam que 87% das exportações de óleo de palma são adquiridas de refinarias que relatam publicamente a fonte de seus produtos.

Deborah Diaz, gerente sênior do Consumer Goods Forum, disse que é extremamente importante que empresas, governos e outros atores nas cadeias de suprimento tenham acesso a dados transparentes para informar decisões e demonstrar impacto e resultados. “Os dados fornecidos pela Trase são muito úteis neste empenho”, disse ela.

Leia uma explicação das principais descobertas: Conectando exportações da soja brasileira ao desmatamento

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Webinar da Trase: Setor de soja do Brasil – Desafios para um futuro ecologicamente correto

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