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Exportação de carne bovina e desmatamento

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A Trase mapeia as cadeias de suprimento globais de commodities de agropecuária, fornecendo insights sobre como os mercados consumidores estão vinculados ao desmatamento e a outros impactos ambientais através de suas importações. Este material explicativo sobre a carne bovina brasileira apresenta os resultados da nossa análise dos dados mais recentes de 2021, 2022 e 2023.

Pecuária sobre área desmatada
Área desmatada na Floresta Nacional do Jamanxin em Novo Progresso, Pará (Foto: Bernardo Câmara/((o))eco)

O Brasil é o maior exportador e o segundo maior produtor de carne bovina do mundo. Em 2023, o país produziu 12,9 milhões de toneladas de carne bovina e foi responsável por cerca de 20% das exportações globais. O setor de carne bovina no Brasil é um dos que mais contribuem para a economia do país, sendo responsável por 8,4% do produto interno bruto (PIB) e cerca de 8,9 milhões de empregos em 2024. A pecuária está presente em todas as regiões do Brasil, mas a capacidade de abate e produção se concentra nas regiões Centro-Oeste e Norte.

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Desmatamento e a produção de carne bovina

A análise da Trase mostra que, em 2023, 7,5 milhões de hectares de pastagens avançaram sobre terras recentemente desmatadas, em comparação com 5,3 milhões de hectares em 2020, um aumento de mais de 36% em quatro anos. No mesmo período, a produção de carne bovina cresceu 15%, aproximadamente metade da taxa de aumento de desmatamento e conversão. Ambos os fatores indicam uma maior intensidade de desmatamento (hectares de desmatamento por 1.000 toneladas de produção) em 2023, em relação a 2020, especialmente na Amazônia. Por exemplo, em 2020, cada 1.000 toneladas de produção de carne bovina na Amazônia estavam vinculadas a 893 hectares de desmatamento. Em 2023 esse número aumentou para 1.300 hectares, um crescimento de 50% na intensidade de desmatamento em menos de 10 anos.

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Na Amazônia, uma grande proporção do desmatamento e conversão foi impulsionada pelo avanço das pastagens. Entre os anos de 2018 e 2020, e entre 2021 e 2023, a média anual de desmatamento no bioma aumentou em 54% (300.000 ha). Houve também um aumento da conversão no Pantanal, embora partindo de uma base mais baixa, enquanto no Cerrado houve um pequeno declínio. Desde 2017, o desmatamento no Brasil causado pela criação de gado avançou, acentuadamente, em direção à Amazônia (62% do total nacional no ano de 2023 em comparação a 40% no ano de 2017). Os locais críticos de desmatamento agrupam-se ao longo da BR-163 e na Transamazônica (sudoeste do Pará, norte de Mato Grosso, Rondônia).

A maioria do desmatamento tende a se concentrar em um número relativamente pequeno de municípios. No Brasil, somente 61 municípios foram responsáveis por 50% do desmatamento causado pelas pastagens no ano de 2023. Em conjunto, esses municípios foram responsáveis por apenas 11% da produção de carne bovina naquele ano. Apenas quatro destes municípios, Altamira (Pará), Porto Velho (Rondônia), São Félix do Xingu (Pará) e Lábrea (Amazonas), foram responsáveis por 12% do desmatamento e conversão para pastagens em 2023. Isso sugere que focar em ações nos locais críticos poderia reduzir, significativamente, o desmatamento e a conversão, e, ao mesmo tempo, ter um impacto relativamente pequeno na produção de carne bovina.

Os dados da Trase usados nesta análise abrangem o período do ano de 2020 ao ano de 2023. Dados de monitoramento por satélite do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – PRODES – mostram que, em 2024, o desmatamento diminuiu 31% na Amazônia e 26% no Cerrado. A redução é atribuída a medidas de controle da perda de cobertura florestal pelo governo federal desde 2023, política contrária à do governo anterior, que era de enfraquecimento à proteção florestal. Esses resultados estarão inseridos nas futuras atualizações dos dados da Trase.

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Mercados e comerciantes

Embora cerca de 70% da carne bovina brasileira seja consumida internamente, na última década, a quota de exportação cresceu. A China é o maior importador de carne bovina brasileira, sendo responsável por 59%, seguida dos Estados Unidos (8%) e da União Europeia (5%) no ano de 2023. A China também é o importador com a maior exposição ao desmatamento, com 124.000 ha no ano de 2015, aumentando para 564.000 ha em 2023.

Desde 2019, os EUA vêm aumentando suas importações de carne bovina brasileira devido a uma demanda crescente. Os volumes subiram de 74.500 (2015) para 264.000 toneladas (2023), com isso, a exposição ao desmatamento associado cresceu de 1.700 ha para 52.900 ha.

Nos últimos anos, a quota de exportação da carne bovina brasileira para a UE tem caído, atingindo 3% em 2023. A média da UE de exposição ao desmatamento no ano de 2015 e no ano de 2023 foi cerca de 28.000 ha por ano, e sua quota média global é de 5%. A exposição da UE ao desmatamento, em termos absolutos, foi 25.000 ha em 2015 e 27.000 ha em 2023.

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Os três maiores comerciantes, JBS, Marfrig e Minerva, aumentaram suas exportações em cerca de 43% de 2015 a 2023, e sua exposição combinada de desmatamento cresceu 44%. Juntos no ano de 2023, eles foram responsáveis por 67% das exportações e por 54% da exposição ao desmatamento e conversão. De acordo com seus próprios relatórios, do total da produção de carne bovina pela JBS, Marfrig e Minerva, as exportações foram responsáveis por 24%, 39% e 57% do consumo, respectivamente. O volume remanescente foi consumido internamente. Os resultados mostram que esses três comerciantes possuem influência considerável sobre a redução do desmatamento associado às exportações de carne bovina.

A quantidade de exposição total ao desmatamento da JBS foi reduzida de mais de 37% no ano de 2015 para 29% no ano de 2023. A Minerva permaneceu com quantidade estável no período, enquanto a da Marfrig aumentou de 10% para 12%. Embora sua quota conjunta de exposição tenha diminuído, a exposição absoluta atribuída a esses comerciantes aumentou mesmo assim, refletindo a expansão geral das exportações para a China.

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Compromissos da empresa quanto ao desmatamento e conversão zero (ZDCs)

Os ZDCs no setor pecuário bovino incluem o Compromisso Público da Pecuária, acordado pelos principais frigoríficos que operam na Amazônia, também conhecido como o Acordo G4, e o Termo de Ajuste de Conduta (TAC) para a carne bovina, que abrange outros frigoríficos na Amazônia. Segundo ambos os acordos, os frigoríficos não podem adquirir gado proveniente de fazendas com desmatamento na Amazônia após 2009. No entanto, enquanto o Acordo G4 prevê que as empresas se comprometam a impedir qualquer desmatamento, o TAC exige apenas a prevenção de desmatamento ilegal. Há também um número crescente de compromissos corporativos individuais que abrangem o Cerrado e outros estados da Amazônia, onde os TACs não estão disponíveis, como o Maranhão e o Tocantins.

A partir de 2015, a abrangência dos ZDCs expandiu consideravelmente. Em 2015, a maior parte da carne bovina (70%; 1,42 Mt) foi produzida e exportada sem estar no âmbito de qualquer compromisso, enquanto o TAC abrangeu 25% (0,51 Mt) e o G4 abrangeu 4% (0,09 Mt) dos volumes de carne bovina. Até 2023, o contrário aconteceu: cerca de 70% da carne bovina foi abrangida pelos ZDCs, com o aumento dos compromissos assumidos pelas empresas para 40% (1,26 Mt) e o TAC para 29% (0,91 Mt).

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Emissões de gases de efeito estufa

Na última década, as emissões brutas de gases de efeito estufa vinculadas às exportações de carne bovina brasileira aumentaram, em 2015 eram de 168 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2-e) e em 2023 de 380 Mt de CO₂-e, um aumento de cerca de 46%.

A maior parte das emissões é proveniente do desmatamento e conversão na Amazônia. Em 2023, a Amazônia representou 73% do desmatamento associado a pastagens no Brasil (138 Mt CO₂-e), enquanto o Cerrado representou 22% (41 Mt CO₂-e) e o Pantanal 3,6% (6,7 Mt CO₂e). As emissões provenientes do Cerrado permaneceram estáveis no período de 2015 a 2023, enquanto as emissões provenientes do Pantanal praticamente dobraram, porém a partir de uma pequena base em 2015 (2,8 Mt CO₂-e).

Os maiores comerciantes de carne bovina, JBS, Marfrig e Minerva, possuem maior exposição às emissões. Juntos, eles foram responsáveis por 52% das emissões em 2023 (JBS 28%, Minerva 13%, Marfrig 11%). As tendências variam com o tempo: As emissões da JBS foram cerca de 10% menores no período de 2015 a 2023, as da Minerva caíram 13% e as da Marfrig se mantiveram estáveis ao longo dos anos com 10%. Embora esses três maiores comerciantes tenham permanecido com uma quota associada substancial, tais mudanças sugerem que desde 2015 parte do aumento das emissões foi proveniente de outros exportadores. A maioria dos novos contribuidores está localizada no estado do Pará, onde comerciantes como a Mercúrio Alimentos e a Frigol foram responsáveis conjuntamente por 12% das emissões atribuídas à exportação em 2023, comparadas com apenas 6% em 2015.

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Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Nicolás Martín, Carina Mueller e Jailson Soares.

Explore e faça o download dos dados sobre a carne bovina brasileira em trase.earth

Para fazer referência a este artigo, use a citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Brazilian beef exports and deforestation. Trase. https://doi.org/10.48650/6VK3-2S18

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2023). SEI-PCS Brazil beef v2.2 supply chain map: Data sources and methods. Trase. https://doi.org/10.48650/CP2S-SP59

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