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Pode o “efeito Beijing-Brasília” ajudar a acabar com o desmatamento?

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Brasil e China têm a oportunidade de usar sua poderosa parceria comercial para garantir a segurança alimentar e a estabilidade econômica futuras, ao mesmo tempo em que combatem o desmatamento e as mudanças climáticas, segundo novo relatório do Trase.

Soy Brazil China
Navio descarrega soja em um porto na China (Jinli Guo/iStock)

A relação comercial bilateral entre o Brasil, maior exportador agrícola do mundo, e a China, maior importador agrícola, é incomparável. Com um valor de quase US$ 47 bilhões por ano, esse fluxo – dominado por soja e carne bovina – é 40% maior do que a segunda maior relação comercial, entre os EUA e a China. Mais da metade das exportações agrícolas brasileiras são destinadas à China, enquanto cerca de um terço das importações agrícolas chinesas vêm do Brasil.

Dada a escala da relação comercial agrícola entre Brasil e China, uma ação coordenada entre os dois países têm o potencial de beneficiar a sustentabilidade do comércio de commodities globalmente, criando um fenômeno que a Trase chama de “efeito Beijing-Brasília”. A expressão deriva do “efeito Bruxelas”, que descreve a influência da legislação da União Europeia na elevação dos padrões ambientais globais. Entretanto, o contexto político atual está em transformação. Os desafios ao multilateralismo e a mudança de prioridades políticas na Europa, nos EUA e em outros mercados estão enfraquecendo a ambição em relação ao clima e à biodiversidade. Nesse contexto, a cooperação Sul-Sul surge como uma via promissora para o avanço da governança ambiental global. No que diz respeito à sustentabilidade do comércio de commodities agrícolas, o Brasil e a China têm o potencial de definir o rumo.

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Ambos os países demonstram crescente ambição no cenário mundial, como evidenciado pela presidência brasileira da COP30, a cúpula mundial do clima, em 2025, e pela presidência chinesa do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, em 2022. Brasil e China são líderes globais na transição para uma economia de baixo carbono. O Brasil gera quase toda a sua eletricidade a partir de fontes renováveis e é líder mundial na produção de biocombustíveis. A China produz a maioria dos painéis solares e turbinas eólicas do mundo e é a maior produtora de veículos elétricos. Esses avanços reduziram os custos das tecnologias de baixo carbono, acelerando sua implantação no mundo todo.

Enfrentando as ameaças do desmatamento e das mudanças climáticas à segurança alimentar

O relatório destaca evidências crescentes da ameaça que o desmatamento, as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade representam para a segurança alimentar e a estabilidade econômica do Brasil e da China. Por exemplo, em 2020, uma seca no sul do Brasil causou uma redução de 46% na produção de soja e 32% na de milho no Rio Grande do Sul – um dos principais estados exportadores do país. Outra seca em 2021-2022 afetou a safra de soja na Amazônia, resultando em uma perda estimada em US$ 13 bilhões e contribuindo para uma queda de 12% no PIB agrícola brasileiro no início de 2022.

O Brasil e a China têm um potencial enorme para influenciar a sustentabilidade das cadeias de suprimentos agrícolas globais e contribuir para a segurança alimentar de bilhões de pessoas. A análise da Trase revela que o comércio entre Brasil e China responde por 25% do risco de desmatamento associado a todo o comércio internacional de produtos agrícolas. No caso específico das importações chinesas, o Brasil responde por 80% do risco de que as commodities sejam provenientes de áreas recentemente desmatadas. Os produtos pecuários brasileiros, por si só, representam 61% desse risco para a China.

A tarefa de reduzir o desmatamento por meio das cadeias de suprimento globais de commodities pode parecer complexa e intransponível. No entanto, a análise da Trase mostra que o desmatamento está concentrado em um número relativamente pequeno de regiões produtoras, o que torna possível ações direcionadas e escaláveis, que impulsionem mudanças sistêmicas, viáveis e impactantes. Embora mais de 1.500 municípios brasileiros forneçam soja para a China, apenas 73 respondem por 75% do risco total de desmatamento.

A China e o Brasil têm uma oportunidade única de fortalecer a cooperação Sul-Sul e liderar uma revolução verde nos sistemas agroalimentares. Este relatório é uma avaliação científica oportuna e um chamado à ação.

Dr. Zhu Chunquan, Diretor do Centro de Pesquisa Nature-Positive

As bases para desbloquear um efeito Beijing-Brasília no comércio sustentável de commodities já estão firmemente estabelecidas: um histórico comprovado de liderança ambiental, a importância da parceria comercial bilateral e o papel central do desmatamento e da agricultura de baixo carbono para garantir a resiliência da cadeia de fornecimento. Para aproveitar plenamente essa oportunidade, é necessário um roteiro de ação conjunta. Cinco prioridades estratégicas promissoras são:

  1. Troca de conhecimento e inovação: Aproveitar as parcerias científicas e técnicas existentes, como os programas de monitoramento por satélite, para impulsionar a inovação em cadeias de suprimentos resilientes e livres de desmatamento.
  2. Destravar financiamento: Alavancar o Fundo Florestas Tropicais para Sempre do Brasil e o Fundo de Biodiversidade de Kunming da China para acelerar o financiamento verde para a conservação florestal e o comércio sustentável.
  3. Estabelecer padrões compartilhados: Desenvolver princípios comerciais mutuamente benéficos e favoráveis às florestas, que se baseiem em compromissos emergentes do setor e em sistemas de rastreabilidade aprimorados.
  4. Combate à ilegalidade: Fortalecer a colaboração na aplicação da lei e em incentivos financeiros para apoiar o compromisso do Brasil em conter o desmatamento ilegal.
  5. Fortalecer a cooperação Sul-Sul: Utilizando a parceria Brasil-China como um poderoso precedente para que outras nações em desenvolvimento avancem com uma agenda conjunta de comércio sustentável.

Parcerias construtivas entre países do Sul Global com grande relevância no comércio podem oferecer exemplos valiosos de como cooperação, dados e ambição compartilhada podem apoiar o desenvolvimento sustentável.

Ana Toni, Diretora Executiva da COP30

Ana Toni, Diretora Executiva da COP30, destaca em seu prefácio que o relatório é uma demonstração de como a ciência e análise de dados ajudam a simplificar a complexa tarefa de tornar mais verdes as cadeias globais de commodities: “Parcerias construtivas entre países do Sul Global com grande relevância no comércio podem oferecer exemplos valiosos de como cooperação, dados e ambição compartilhada podem apoiar o desenvolvimento sustentável.”

O Dr. Zhu Chunquan, Diretor do Centro de Pesquisa Nature-Positive, disse: “A China e o Brasil têm uma oportunidade única de fortalecer a cooperação Sul-Sul e liderar uma revolução verde nos sistemas agroalimentares. Este relatório é uma avaliação científica oportuna e um chamado à ação.”

Vasconcelos, A., Titley, M., & Gardner, T. (2026). O Efeito Beijing-Brasília: Um novo paradigma para o comércio sustentável de commodities agrícolas? Trase. https://doi.org/10.48650/KHB9-MA02

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